Angústia: Um sentimento positivo

Observamos que aspectos negativos estão sempre correlacionados à palavra angústia, que no bojo dos relatos fenomenológicos descrevem características de transtornos psíquicos como as doenças bipolares, depressões e tantas outras que constroem quadros que envolvem os afetos.

Penso que a angústia é um sintoma, e o sintoma de uma doença por si só não significa muito, se não for considerada como a expressão de um mal-estar e de um sofrimento que engloba todo o paciente.

A angústia é comumente descrita como causadora de um “nó por dentro”, que se apresenta como “um aperto no peito”, nas dimensões de “um vazio profundo”. Isso gera uma ausência de vontade, presença constante nas estagnações ou excesso, passividade, sofrimento ou assujeitamento.

Essas construções de pensamento geram os mesmos efeitos de um agente paralisador, temporal e espacial, de movimentos da vida. Somente quando frases com esses elementos são pronunciadas, é que se vislumbra a possibilidade de dar outro significado a essa angústia, vivenciando de maneira diferente, atribuindo novos significados e possibilitando certa repercussão nas pessoas próximas. Mas , afinal, o que é a angústia?

“Angustiar-se é encontrar-se consigo, única condição que nos permite emergir de inúmeros desafetos e melhorar nossas relações interpessoais.”

Pensando seus significados, o filósofo Kierkegard, em “O Conceito de Angústia”, atribuiu que “a raiz da angústia é a existência como possibilidade”. A afirmativa mostra tratar-se de uma disposição afetiva, algo que impulsiona o homem nos seus próprios movimentos. Já segundo Heidegger, em “Ser e Tempo”, é a angústia que nos encaminha a um encontro com o ser, num direcionar ao nada, que permite abertura de caminhos para se encontrar com algo não descrito, rumo ao destino. Neste caso, Heidegger diz que a angústia “liberta o homem das possibilidades nulas e o torna livre para as autênticas”. Neste constructo existencial, Jean Barraud, em “O Homem e a Sua Angústia”, diz que quando esta “surge de frente, derruba as pontes que unem as margens, provoca um despertar e torna a lucidez mais incisiva”.

Mas, a angústia se faz e se mostra a sua maneira e nem sempre temos uma leitura útil para ela. A linguagem nos falta para um conceito preciso. Somos tomados pela sensação de estar em movimento de afeto, mas diante de coisas concretas como atividades, trabalhos e pessoas, muitas vezes fica difícil conciliar tal sentimento, que nos causa tanta desorientação.

Compomos o mundo e somos compostos por ele em cada circunstância; interagimos, mas dificilmente remontamos à nossa condição existencial.

Somos para esta composição uma complementação; e quando nos sentimos fora de tudo isso, pensamos estar em solidão, abandonados neste vazio profundo e doentio. Oraison, em “Ilusão e Angústia”, elabora uma metáfora ilustrativa, onde tenta mostrar sua percepção das adversidades do movimento entre estar em angústia só e em conjunto. Apresenta um posicionamento entre paralelos de vida e acordes para seres distintos, direcionados pelos mesmos propósitos: “poder-se-á comparar a humanidade – numa alegoria muito imperfeita – a uma orquestra que não consegue chegar a um acordo”. A maioria dos músicos deseja poder “coexistir”, no tom e no ritmo, mas algo de inexplicável impede que se consiga isto com perfeição. É que eles não dominam com maestria seus respectivos instrumentos, alguns perdem o tom ligeiramente e outros vão um pouco depressa demais. É como se nenhum deles conseguisse assumir e ultrapassar sua musicalidade individual, para se integrar ao conjunto. “De repente, aqui e acolá, um ou outro perde completamente o controle e o sentido da sinfonia. Começam a delinear, executando, por sua conta, melodias incoerentes e solitárias, dramáticas ou lamentáveis”.

A angústia consiste assim em uma ambiguidade conceitual. Por um lado, ela tanto nos assusta e, por outro, nos permite encontrar com algo maior, lançando-nos neste introjetar para a condição de morte, apresentando nossa finitude e nossas limitações diante da vida. Mas ela também aponta nossas possibilidades de ser e de existir no enfrentamento da vida, como uma força que emana de dentro para fora. Fatores como estes nos encaminham em direção ao outro, abrindo nossa percepção para um posicionamento de aceitação de suas fragilidades, inconstâncias e possibilidades de mutação, junto ao processo de integração à cotidianidade.

É fundamental, portanto, aprendermos a estar nesse movimento. Deixarmo-nos ser, abrirmo-nos para a vida diante de suas variações de afeto, criando assim resistência para enfrentar o cotidiano, permitindo-nos conhecer cada instante dele, mesmo tendo que introjetar-se nesta angústia marginalizada pelo conceito criado sobre ela. E assim, encontrarmos o outro. Quando vemos, ou melhor, nos damos neste desvelar e permitimos tal abertura, entramos por um caminho que Aristóteles dizia ser o “espanto”, nossa condição de contemplação sob nossa própria condição de existência em possibilidades.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *