A difícil dor de uma mãe que perde o filho

A grande maioria das mulheres sonha com o tão esperado momento da maternidade. É um marco de grande transformação. Significa a consolidação de valores femininos e sentimentos latentes, muito fortes, que se vinculam com o ser que é gerado em seu ventre.

A figura materna tem elevada importância na constituição do indivíduo. Há quem diga que uma mãe é capaz de se submeter a grandes sacrifícios, pelo bem estar de sua prole. A presença materna é mais intensa no ciclo entre o nascimento até a constituição da personalidade.

Quando se fala em ciclo de vida é preciso pensar em um conjunto de etapas, pelas quais normalmente passa um determinado ser vivo: nascimento, infância, adolescência, idade adulta, senilidade e morte. Está associado a mudanças, desorganização, medo, crise, transição, ou seja, o que comumente denominamos como “passagem”.

Neste contexto de desenvolvimento humano, uma situação que pode ser conflituosa e difícil para uma mãe é o momento em que um filho vai embora de casa. Essa fase requer grande desinvestimento objetal, mudanças pessoais e reorganização familiar.

O primeiro estágio no ciclo de vida de uma pessoa, denominado “Jovem adulto solteiro”, é um marco. É quando os jovens começam a estabelecer objetivos pessoais e passam a olhar para fora do circulo familiar, de almejar desafios, firmar-se como adulto e experimentar suas próprias escolhas.

Na Psicologia, a relação familiar tem sido alvo de pesquisa e estudo das chamadas relações intergeracionais. E essa ruptura, mais especificamente da ligação maternal, também é comumente conhecida como “ninho vazio”. Concomitantemente, surgem à tona outros acontecimentos no sistema familiar envolvendo pais, avós e outros membros, caracterizando diversas manifestações de perda, exigindo novos modelos vinculares. Nesta fase é o momento de reexaminar os modelos relacionais.

O enfrentamento de lançar os filhos e seguir em frente pode ser vivido de diferentes formas. Para algumas famílias, chegar nesta fase do ciclo pode significar realização e conclusão de alguns objetivos, além de expansão e possibilidade de novos projetos e caminhos. Para outras, no entanto, este momento pode ter como conseqüência questionamentos que levam ao rompimento de casamentos, a um sentimento esmagador de perda e vazio, e até mesmo a um sentimento de desintegração.

A saída de um filho pode acarretar a desestabilização familiar e conseqüências patológicas, caso não haja a mudança por parte de quem vivencia esse sentimento.

A estabilização da estrutura familiar é tão importante para o filho, que se afasta do ambiente familiar, quanto para os integrantes que restaram nesse núcleo afetivo.

Há casos de mães que conseguem lidar com a ausência do filho, quando esse busca por independência. Porém, pode ser alvo de ciúme, carência e hipersensibilidade quando ele, objeto de tanta devoção, encontra alguém e se casa, passando a dividir sua atenção com a nova família e agregados.

Tristeza, melancolia, baixa estima, desinteresse pelo convívio social e outros sintomas depressivos podem surgir nesta fase, caracterizada por um enlutamento. Isso pode se prolongar até que ocorra a elaboração dessa mudança, no círculo familiar, em uma situação normal. Porém, deve-se observar a evolução desse estágio para um quadro mais complicado, acarretando outras enfermidades.

É de grande importância para a mulher tentar compreender como ocorreu seu desenvolvimento emocional e começar a reconstruir sua base emocional. Voltar a interagir com o seu meio, envolver-se com projetos pessoais como viajar, dedicar-se a algum trabalho profissional ou comunitário, praticar atividades físicas e artes. É o momento de fortalecer a relação unipessoal, promovendo o amadurecimento psíquico. Isso diz respeito à capacidade de se sentir bem, mesmo sozinho, principalmente quando o convívio fica restrito a poucos membros familiares. E para que o indivíduo possa se relacionar com outro objeto, faz-se necessário que antes ele aprenda a se relacionar consigo mesmo.

Na terapia recomenda-se investigar o analisando, identificando os pontos de instabilidade em todas as fases de sua vida. É importante correlacionar as experiências pessoais com o que está afetando o sistema familiar e seu ego, com o objetivo de resgatar o investimento emocional para outras dimensões.

Portanto, a relação materna não finda com essa mudança, apenas se transforma e requer uma nova forma de viver a vida. É um reelaborar de laços conjugais e parentais, com a possibilidade de inclusão de novos membros, dando especial atenção ao cuidado consigo e com a geração mais velha.

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