fbpx

Déficit de atenção – TDAH

O transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) é uma das psico¬patologias de início na infância que conta com maior número de publi¬cações na última década. O interesse no estudo desta patologia parece estar relacionado com o significativo com¬prometimento funcional que pode vir a se constituir em prejuízo para o sujeito em diversas áreas: acadêmica, profissional e social.1 Anteriormente, acreditava-se que o TDAH poderia de¬saparecer no período compreendido entre a adolescência e a idade adulta. Entretanto, estudos mais recentes de¬monstraram que, no mínimo, metade dos indivíduos com TDAH na infância continuam a ter sintomas significati¬vos na adolescência e vida adulta.

O TDAH, segundo critérios diagnósticos da American Psychia¬tric Association – DSM-IV-TR,3 é um transtorno mental que consiste em um padrão persistente de desatenção e/ou hiperatividade e impulsividade. É uma síndrome que depende de fatores genéticos, familiares e de adversidades biológicas e psicossociais. Estudos têm demonstrado que pais de crianças com TDAH possuem um risco duas a oito vezes maior de também apresentarem esse transtorno.

De maneira geral, as principais al¬terações neuropsicológicas encontra¬das no TDAH são prejuízos em testes de atenção, de aquisição e de função executiva.4 Assim, segundo Barkley,1 o TDAH envolve um déficit do com¬portamento inibitório e das funções executivas relacionadas a ele.

O diagnóstico de TDAH, segun¬do Rohde et al,5 é fundamentalmente clínico, baseando-se em sistemas clas¬sificatórios como a CID-106 e o DSM-IV-TR,3 e compreende os seguintes critérios:

a) a desatenção pode ser identificada pelos seguintes sintomas: dificuldade de prestar atenção a detalhes ou errar por descuido em atividades escolares e de trabalho; dificuldade para manter a atenção em tarefas ou atividades lú¬dicas; parecer não escutar quando lhe dirigem a palavra; não seguir instru¬ções e não terminar tarefas escolares, domésticas ou deveres profissionais; dificuldade em organizar tarefas e atividades; evitar tarefas que exijam esforço mental constante, ou relutar em envolver-se nelas; perder coisas necessárias para tarefas ou atividades; ser facilmente distraído por estímulos alheios à tarefa e apresentar esqueci¬mentos em atividades diárias;

b) a hiperatividade implica a pre¬sença freqüente das seguintes carac¬terísticas: agitar as mãos ou os pés ou se remexer na cadeira; abandonar sua cadeira em sala de aula ou outras si¬tuações nas quais se espera que per¬maneça sentado; correr ou escalar em demasia, em situações nas quais isso é inapropriado; dificuldade em brincar ou envolver-se silenciosamente em ati-vidades de lazer; estar freqüentemente “a mil” ou muitas vezes agir como se estivesse “a todo o vapor”; e falar em demasia;

c) os sintomas de impulsividade são: freqüentemente dar respostas preci¬pitadas antes de as perguntas terem sido concluídas; com freqüência ter dificuldade em esperar a sua vez; e freqüentemente interromper ou se meter em assuntos de outros.3

O DSM-IV-TR3 subdivide o TDAH em três tipos:

a) TDAH com predomínio de sin¬tomas de desatenção;
b) TDAH com predomínio de sintomas de hiperatividade/impulsi-vidade;
c) TDAH combinado, se existirem critérios para desatenção e hiperativi¬dade, reconhecendo que os sintomas estão presentes antes dos sete anos de idade e que devem causar com¬prometimento em dois ou mais con¬textos diferentes (casa e escola), além de resultar em prejuízo significativo no funcionamento social, acadêmico e/ou ocupacional. Há ainda a possibili¬dade do TDAH “em remissão parcial” para adolescentes e adultos que não preenchem os critérios plenos, devido a uma atenuação da sintomatologia. O DSM-IV propõe a necessidade de pelo menos seis sintomas de desatenção e/ou seis sintomas de hiperatividade/impulsividade para o diagnóstico de TDAH. A literatura tem sugerido que, na adolescência, os sintomas de hipera¬tividade tendem a diminuir, restando de forma mais acentuada os sintomas de desatenção e impulsividade.7

Sabe-se que, com o tempo, outros transtornos costumam se associar ao TDAH, aumentando assim a ocorrên¬cia de comorbidades psiquiátricas.8

Segundo Searight et al,9 as comor¬bidades mais freqüentes são: transtor¬nos do humor (19 a 37%), transtorno de ansiedade (25 a 50%), abuso de álcool (32 a 53%), outros abusos por substâncias –maconha e cocaína (8 a 32%) – e trans¬tornos de personalidade (10 a 20%). As pesquisas também mostram uma alta prevalência de comorbidade entre o TDAH e os transtornos disruptivos do comportamento (transtorno de condu¬ta e transtorno de oposição desafiante) em torno de 30% a 50%.10

Existem, ainda, inúmeros estu¬dos que tratam da associação entre o TDAH e o abuso ou dependência de substâncias psicoativas.11,12,13

Para Barkley,1 os adolescentes com TDAH apresentam risco de prejuízo na auto-estima, relações difíceis com os colegas, conflito com os pais, de¬linqüência e uso de drogas lícitas ou ilícitas. O mesmo autor refere que, ao 12 V O L 9 9 N º 0 3 ; J U L / A G O / S E T 2 0 0 5 — A R Q U I V O S B R A S I L E I R O S D E P S I Q U I AT R I A , N E U R O L O G I A E M E D I C I N A L E G A L
Longo do desenvolvimento, o TDAH está associado a um risco elevado de de¬sempenho escolar deficiente, repetên¬cias, expulsões e suspensões escolares, reações conflituosas com familiares e colegas, desenvolvimento de ansieda¬de, depressão, problemas de conduta e delinqüência. Entretanto, MacDonald & Achembach14 discutem, ainda, que parte do prejuízo causado pela evolu¬ção do TDAH pode estar relacionada à comorbidade com transtorno de con¬duta, podendo não ser conseqüência somente do TDAH.

Tims et al,13 em pesquisa realizada nos Estados Unidos, buscaram conhe¬cer as características e os problemas de 600 adolescentes, de 12 a 18 anos, abusadores de maconha em tratamen¬to por uso de drogas. Nos resultados, revelaram ter encontrado 30% de ado¬lescentes com comorbidade de TDAH e transtorno de conduta.

Horner & Scheibe,12 em outro es¬tudo americano, analisaram a preva¬lência do TDAH entre adolescentes em tratamento por uso de substâncias psicoativas, sugerindo que o grupo de adolescentes com TDAH utiliza a droga na tentativa de automedicar-se. Segundo os autores, o uso de substân¬cias psicoativas no grupo com TDAH era mais severo, e os adolescentes ti¬nham sua auto-estima muito preju-dicada quando comparados ao grupo não-usuários.

Biederman et al,15 em um estudo rea-lizado com adultos com TDAH diag¬nosticado na infância, verificaram que em torno de 40% dos pacientes apre¬sentavam abuso ou dependência por substâncias psicoativas durante a vida. Em suas conclusões, referiram ainda que, independentemente da comorbi-dade com outras doenças psiquiátricas, o risco ao abuso de substâncias entre pacientes com TDAH é maior.

De posse das informações ante¬riormente descritas, o presente estu¬do buscou verificar se existe associa¬ção entre a presença do diagnóstico de TDAH e o abuso ou dependência de substâncias psicoativas na adoles¬cência, comparando com adolescentes sem abuso ou dependência de drogas, objetivando enfatizar a necessidade de um diagnóstico preciso e precoce entre comorbidades psiquiátricas.

MÉTODO

Trata-se de um estudo com delinea-mento transversal, de comparação entre dois grupos: grupo usuários e não-usuários.

Participantes
Participaram deste estudo 60 sujeitos do sexo masculino e feminino, com idades entre 12 e 16 anos, bem como seus pais ou responsáveis, que foram alocados em dois grupos. O grupo usuários foi composto por 30 adoles¬centes que foram encaminhados pelo Sistema de Justiça ao Laboratório de Intervenções Cognitivas (LABICO) da Faculdade de Psicologia da PUC-RS, no período de setembro de 2003 a dezembro de 2004, para avaliação e tratamento por uso de drogas. O gru¬po não-usuários foi constituído por 30 adolescentes, não usuários de drogas, pertencentes a três escolas públicas da cidade de Porto Alegre, pareados de acordo com sexo, idade e nível sócio-econômico.

Os critérios de inclusão no grupo usuários foram: o adolescente ter entre 12 e 16 anos, ser abusador ou depen¬dente de maconha (e/ou outras dro¬gas ilícitas, desde que não preenchesse critérios diagnósticos para dependên¬cia de outras substâncias ilícitas), ter pais ou responsáveis disponíveis para o processo de avaliação e ter cursado, no mínimo, a 5ª série do ensino fun¬damental. No grupo não-usuários, os critérios de inclusão foram os mesmos, no entanto, os participantes não pode¬riam preencher critérios diagnósticos para abuso ou dependência de SPA.

Foram critérios de exclusão no grupo usuários: sujeitos que apresen¬tassem síndrome de privação grave, com sintomas de abstinência da droga (delírios, alucinações) que alterassem o desempenho nos testes, déficit cog¬nitivo, patologias psiquiátricas severas ou patologias orgânicas. Os mesmos critérios de exclusão foram adotados para o grupo não-usuários. O abuso de álcool e de tabaco não foi fator de exclusão no grupo não-usuários.

Diagnóstico do TDAH

Existe uma dificuldade em diferenciar a presença de comorbidades relacionadas com o uso de drogas (quadros psicóticos).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *